sábado, 7 de novembro de 2020

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS 

A partir desta unidade, você será capaz de:

 • identificar as principais causas e consequências da Primeira Guerra Mundial; 

• conhecer o contexto em que se deu a Revolução Russa e a importância dessa revolução para a construção do panorama político e econômico do mundo contemporâneo; 

• compreender a grande depressão de 1929 nos Estados Unidos da América e suas consequências na reestruturação do sistema capitalista. Esta unidade está organizada em três tópicos. Em cada um deles, você encontrará atividades para uma maior compreensão das informações apresentadas.

 TÓPICO 1 – A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO 

TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO RUSSA: ALTERNATIVA AO CAPITALISMO 

TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS NO ENTRE GUERRAS E A CRISE DO SISTEMA CAPITALISTA

TÓPICO 1 UNIDADE 1

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO

CONTEMPORÂNEO

1 INTRODUÇÃO

Prezado acadêmico! Chegamos ao último módulo do curso de História.

Agora podemos visualizar a sequência das disciplinas de história geral de nosso

curso: Pré-História, História Antiga, História Medieval, História da América,

História Moderna, e, por fim, História Contemporânea. É importante dizer que,

essa sequência progressiva no tempo serve apenas para objetivos didáticos, não

representa a “evolução da humanidade” para um estágio superior da civilização.

É inegável que entre a pré-história e a história contemporânea as sociedades

desenvolveram-se de forma incrível em termos tecnológicos, mas, por outro

lado, aumentaram as desigualdades sociais e destruíram o meio ambiente em

proporções alarmantes.

Se hoje questionamos os valores racionalistas baseados na ciência e na

técnica é, justamente, devido aos acontecimentos ligados às duas guerras mundiais

do século XX. A Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918) e a Segunda Guerra

Mundial (1939 a 1945) puseram um fim ao otimismo tecnológico da sociedade

capitalista do século XIX. Ou seja, as duas guerras mundiais nos mostraram os

perigos da evolução tecnológica sem controle. Afinal, onde queremos chegar

com tanto conhecimento científico e tecnológico? Será que as máquinas e as

“invenções maravilhosas” não contribuíram para afastar ainda mais os homens

de seus semelhantes e de suas tradições?

Depois da Revolução Industrial, as máquinas passaram a fazer parte do

dia a dia das sociedades urbanas e campesinas. As máquinas e as invenções do

século XIX e XX (aspirina, cinema, automóvel, avião) geraram um verdadeiro

sentimento de euforia e de felicidade. “Sob o impacto da Segunda Revolução

Industrial (final do século XIX até meados dos século XX), o progresso material

e científico expandia-se rapidamente, fundamentando a crença de que a

humanidade avançava linearmente rumo a um futuro promissor”. (VISENTINI;

PEREIRA, 2008, p. 89). 


UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO


Por outro lado, o século XIX também foi o período de fortalecimento dos

estados nacionais modernos (como vimos em História Moderna) e de consolidação

do capitalismo industrial (esse assunto foi tratado em História do Imperialismo,

você se recorda?). Naquele momento, os centros urbanos da Europa serviam

como modelo de civilização: burguesa na cultura; liberal na política e capitalista

industrial em termos econômicos. Entretanto, a imagem positiva do progresso

tecnológico foi abalada com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Essa guerra

deixou evidente o lado negativo do progresso industrial e científico, quando

armas eficientes e sofisticadas tiraram milhares de vidas.

Segundo Eric Hobsbawm, a Primeira Guerra Mundial:

[...] assinalou o colapso da civilização (ocidental) do século XIX.

Tratava-se de uma civilização capitalista na economia; liberal na

estrutura legal e constitucional; burguesa na imagem de sua classe

hegemônica característica; exuberante com o avanço da ciência, do

conhecimento e da educação e também com o progresso material e

moral, e profundamente convencida da centralidade da Europa, berço

das revoluções da ciência, das artes, da política e da indústria e cuja

economia prevalecera na maior parte do mundo, que seus soldados

haviam conquistado e subjugado; uma Europa cujas populações

(incluindo-se o vasto e crescente fluxo de imigrantes europeus e seus

descendentes) haviam crescido até somar um terço da raça humana;

e cujos maiores Estados constituíram o sistema da política mundial.

(1995, p.16).

Esse caderno de estudos abordará, então, o período histórico marcado

pelos efeitos políticos, econômicos, sociais e culturais causados pelas duas

Grandes Guerras. O século XX foi tempo de incerteza em relação ao futuro; tempo

de nacionalismos extremados; tempo de alto desenvolvimento tecnológico.


2 O TEMPO CONTEMPORÂNEO


A História ou Idade Contemporânea compreende o espaço de tempo

que vai da Revolução Francesa (1789) aos nossos dias. Entretanto, iniciaremos

o caderno com a Primeira Grande Guerra. Sendo que a Revolução Francesa foi

tema de estudos do caderno de História Moderna e os principais acontecimentos

históricos do século XIX foram abordados no caderno de História do Imperialismo.

Antes de iniciarmos os estudos sobre a Primeira Guerra, veremos rapidamente

algumas das características do período contemporâneo e do tempo presente.

A idade contemporânea está marcada, de maneira geral, pelo

desenvolvimento e consolidação do regime capitalista no ocidente e,

consequentemente, pelas disputas das grandes potências europeias por territórios,

matérias-primas e mercados consumidores. 

As disputas imperialistas, entre a última década do século XIX até a

Primeira Guerra Mundial, envolveram uma série de conflitos armados na África

e Ásia, principalmente. Tais disputas também promoveram os contatos culturais

entre diferentes culturas espalhadas pelo mundo. O processo de conquista

imperialista redesenhou, assim, o mapa mundial. Enquanto os territórios da Ásia

e da África foram subjugados pelas potências europeias, a América Latina se

tornou área de influência dos Estados Unidos.

A contemporaneidade é identificada, também, pelo desenvolvimento

industrial e tecnológico, que serviu e vem servindo a interesses distintos e

contraditórios. A indústria moderna produz tanto mercadorias voltadas ao conforto

e bem estar dos indivíduos, quanto instrumentos para guerras, para o extermínio.

A laicização do Estado foi outro acontecimento significativo da Idade

Contemporânea. Ela consistiu basicamente na separação política entre Igreja e

Estado. A substituição do estado monárquico (governado por representantes

da nobreza e da igreja), pelo estado republicano (governado por membros da

sociedade civil). Essa mudança teve origem na revolução burguesa do século

XVIII. (Sobre a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa consulte

o Tópico 4 da Unidade 3, do Caderno de estudos de História Moderna). Após a

Revolução Francesa, os antigos valores da Igreja foram sendo substituídos pelos

ideais republicanos dos Estados Nacionais. A escola, a imprensa e as propagandas

serviram para difundir um sentimento de identidade entre os habitantes de uma

nação. A exaltação do sentimento nacional é chamada de nacionalismo. Na história

contemporânea, as guerras agiram como fator incentivador do nacionalismo.

Segundo Visentini e Pereira (2008, p.120), após a Primeira Guerra Mundial, o

número de países republicanos se igualou ao número de países monárquicos.

Entre as guerras mundiais (1918-1939), o número de regimes republicanos passou

de três, em 1914, para catorze, em 1921.

 O processo de migração do campo para a cidade foi outro fator importante

para compreendermos a Idade Contemporânea. O processo de industrialização

e de mecanização do trabalho no campo empurrou para a cidade uma grande

população de camponeses pobres. O crescimento acelerado das cidades é

característica marcante do século XX. A cidade é um espaço ambíguo que pode

congregar ou segregar os indivíduos ou as classes sociais. É um espaço de encontro

e desencontro, um espaço vivo, e, por isso, em constante transformação. Um espaço

tipicamente moderno. Assim, o desenvolvimento das cidades, a supremacia da

tecnologia e o incentivo ao nacionalismo estão entre as características marcantes

do tempo contemporâneo.

Esses fatores são importantes para entendermos a “era da catástrofe”

(HOBSBAWM, 2005): período entre 1914 e 1945; entre a Primeira e a Segunda

Guerra Mundial. As guerras mundiais arrasaram cidades e mataram militares e

civis; incitaram o ódio entre populações através da difusão do patriotismo agressivo. 

Segundo Eric Hobsbawm:

O grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas

da guerra mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como

compreender o Breve Século XX sem ela. Ele foi marcado pela guerra.

Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os

canhões e as bombas não explodiam. (1995, p.30).


3 ANTECEDENTES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

(1914-1918)

Os números da guerra são estrondosos assim como foram as explosões

nos campos de batalha. O trágico saldo da Primeira Guerra Mundial, conhecida

também como Grande Guerra, foi de 8 milhões de mortos e 25 milhões de feridos.

Essa guerra envolveu o mundo, direta ou indiretamente. Além dos principais

países: Inglaterra, França, Rússia, Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, a guerra

alterou o cotidiano de milhares de pessoas em outros países.

Para que você tenha uma ideia da dimensão desse conflito, convido a ler

o texto a seguir, retirado do livro “Era dos extremos”, de Eric Hobsbawm.

A Primeira Guerra Mundial envolveu todas as grandes potências, e na

verdade todos os estados europeus, com exceção da Espanha, os Países Baixos,

os três países da Escandinávia e a Suíça. E mais: tropas do ultramar foram,

muitas vezes pela primeira vez, enviadas para lutar e operar fora de suas regiões.

Canadenses lutaram na França, australianos e neozelandeses forjaram a consciência

nacional numa península do Egeu – “Gallipoli” tornou-se seu mito nacional

– e, mais importante, os Estados Unidos rejeitaram a advertência de George

Washington quanto a “complicações europeias” e mandaram seus soldados para

lá, determinando assim a forma da história do século XX. Indianos foram enviados

para a Europa e o Oriente Médio, batalhões de trabalhadores chineses vieram para

o Ocidente, africanos lutaram no exército francês. Embora a ação militar fora da

Europa não fosse muito significativa a não ser no Oriente Médio, a guerra naval

foi mais uma vez global: a primeira batalha travou-se em 1914, ao largo das ilhas

Falkland, e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados,

deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio.

FONTE: HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad. Marcos

Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 31.

Mas como entender essa guerra global, esse imenso movimento armado

que teve duração de quatro anos? Para isso, faremos uma pequena revisão do

contexto político e econômico da segunda metade do século XIX e primeira década

do século XX. Pois, para que possamos compreender as causas da Grande Guerra,

é preciso entender as disputas imperialistas (ou neocolonialistas) daquele período.

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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Antes, que tal rever o conceito de Imperialismo?

Imperialismo: forma de política ou prática exercida por um Estado que visa à própria

expansão, seja por meio de aquisição territorial, seja pela submissão econômica, política e

cultural de outros Estados. (Dicionário Eletrônico Houaiss)

*

Segundo Vladimir Lênin o Imperialismo é a fase mais adiantada do sistema econômico

capitalista – LÊNIN, Vladimir I. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo :

Centauro, 2003. Já para Hannah Arendt o Imperialismo é o “primeiro estágio do domínio

político da burguesia”, ou seja, o período histórico (1884-1914) em que a classe burguesa

lutou contra os estadistas em defesa de uma política mundial que favorecesse a expansão

do comércio, antes restrito ao território nacional. Ver: ARENDT, Hannah. As origens do

totalitarismo: Imperialismo, a expansão do poder: uma análise dialética. Rio de janeiro:

Editora Documentário, 1976.

Os principais países imperialistas foram, justamente, aqueles que

se adiantaram no processo de industrialização. Aqueles que passaram pela

revolução industrial e estavam inseridos na dinâmica de comércio internacional de

mercadorias e matérias-primas. No mapa a seguir são apresentados os principais

estados imperialistas, assim como suas possessões. Perceba que a África, Oceania

e sul da Ásia tiveram seus territórios repartidos entre as potências europeias.

FIGURA 1 – OS IMPÉRIOS COLONIAIS NO MUNDO EXTRAEUROPEU EM 1914

FONTE: VISENTINI, Paulo G; PEREIRA, Analúcia D. História do mundo contemporâneo: da Pax

Britânica do século XVIII ao choque das civilizações do século XXI. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 95.

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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E o que explica essa partilha do mundo? Bom, para o sucesso de uma

economia capitalista baseada na produção industrial foi necessário: infraestrutura

urbana (base material indispensável para a produção); mão de obra suficiente

(operários treinados para exercer trabalhos mecânicos específicos); mercado

consumidor; e domínio de regiões fornecedoras de matérias-primas. Nesse

sentido, o desenvolvimento do capitalismo industrial se deu através da

colonização de zonas fornecedoras de matérias-primas e no fortalecimento do

mercado internacional. O volume de produtos manufaturados em circulação

crescia cada vez mais.

O processo de industrialização, por sua vez, se caracterizou pela

mecanização da produção. As primeiras indústrias que surgiram na Inglaterra no

século XVIII serviram de modelo para outras nações. As principais consequências

do desenvolvimento industrial foram:

• A mecanização da produção.

• A exploração do trabalho assalariado.

• A ampliação do mercado para consumo dos produtos industrializados.

• O crescimento das cidades (a exploração do campo pela cidade).

• O controle de territórios fornecedores de matérias-primas.

Podemos concluir que os conflitos imperialistas consistiram na disputa

das potências europeias por regiões que forneciam matérias-primas para a

indústria moderna. Essas mesmas regiões eram vistas também como mercados

consumidores de produtos industrializados. A luta por território e por

mercado levou os países imperialistas, por sua vez, a investir na produção e no

armazenamento de armas e a criar mecanismos de proteção econômica: estratégias

que tinham como objetivo impedir a importação, através da taxação de produtos

estrangeiros. Esses fatores somados forneceram as bases para a guerra.

Vejamos, assim, o que Carl Grimberg diz sobre o jogo de poder entre nações

imperialistas que contribuiu para o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial:

A verdade é que a guerra não foi procurada pela maior parte dos

estadistas europeus, os quais paulatinamente foram se encontrando com

ela; também é verdade que em geral se contava com uma descarga em razão

das enormes dissensões políticas existentes no sistema de Estados europeus.

O imperialismo das grandes potências europeias e a rivalidade marítima

germano-inglesa foram as causas principais e profundas do estampido do

conflito. Depois esteve a desforra francesa, que desejava a reconquista de

Alsácia e Lorena, e por fim, o afã expansionista da Rússia dirigido para a

aquisição dos estreitos do Mar Negro, sem citar os movimentos nacionalistas 

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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dos povos da Europa oriental, perigosamente aliados com o pan-eslavismo

e o (neoeslavismo) alimentados pela Rússia. Esta disposição ambiental dos

povos de se embarcarem numa aventura bélica de proporções imprevisíveis foi

fomentada por uma propaganda nacionalista que educava sistematicamente

no tema do ódio.

FONTE: GRIMBERG, Carl. História Universal. A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Europa América,

1989. p. 4. v. 22.

Também é importante apontar o papel do nacionalismo na guerra. O

Nacionalismo exagerado (chauvinismo) agiu na construção do sentimento de

ódio em relação ao inimigo estrangeiro. De maneira geral, o nacionalismo – que

se inicia com o culto aos símbolos nacionais (hino e bandeira) e com a tradição

cultural da nação – reforça os laços afetivos da população de um país e marca

as diferenças entre as nações. O nacionalismo exagerado é um fator subjetivo

que incentiva os soldados ao combate. Aliás, o episódio que desencadeou a

Primeira Guerra Mundial – o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando,

herdeiro do império austríaco – foi organizado por um grupo de chauvinistas

sérvios, que desejavam a anexação dos territórios eslavos dos Balcãs (Eslovênia e

Croácia), então sob domínio do império Austro-Húngaro. Ferdinando foi morto

em Sarajevo (Bósnia), em 28 de junho de 1914, pelo estudante Gavrilo Princip,

membro do grupo nacionalista radical denominado “Mão Negra” ou “Unidade

ou Morte”. Defendia o ideal pan-eslavista e lutava pelo fim das influências

austríacas na Península Balcânica. Princip é considerado um dos primeiros

terroristas do século XX.

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Para aprofundar seus conhecimentos sobre Nacionalismo sugiro o livro de

Benedict Anderson, denominado “Comunidades Imaginadas”. Nesse livro, a autora faz

uma reflexão sobre a construção do sentimento de identidade nacional, ou melhor, do

sentimento que une as pessoas em torno da nação.

Segundo Anderson, a nação é constituída por uma “comunidade imaginada”, ou seja, por

uma população que mantém uma imagem de seu país e da própria comunidade nacional.

A imagem de uma nação é constituída historicamente por meio de uma série de símbolos,

mitos, alegorias, personagens heróicos e pela própria literatura.

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas – reflexões sobre a origem e a difusão do

nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Uma nação afirma sua identidade na relação com outros países. No

caso das nações imperialistas, a afirmação da nacionalidade se dá em função de

sua pretensa superioridade tecnológica e racial sobre as nações dominadas. O

movimento ultranacionalista foi um fator gerador de conflitos e guerras.

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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O nacionalismo revelou-se uma das ideologias mais importantes

do século (XX), emergindo como desbobramento da Revolução

Francesa e da Era Napoleônica ou reação a elas, representando um

movimento paralelo à ascensão da burguesia ao poder. A ideia de

soberania nacional, de autonomia como expressão da liberdade e

uma certa concepção romântica do povo (volkgeist) contribuía para

a formação da nação, que daria uma nova base ao Estado moderno.

O nacionalismo potencializava os fatores etnográficos, linguísticos,

religiosos e geográficos, e seu desenvolvimento, marcado por várias

guerras, desgastou as estruturas regionais e supranacionais que ainda

existiam no início do século XIX. De uma ideologia democrática e

progressiva, o nacionalismo foi se tornando, gradativamente, numa

concepção reacionária na Europa. As tradições inicialmente invocadas

como formadoras de determinada identidade passaram a ser

consideradas como traços da personalidade nacional. A emergência de

um sentimento de superioridade coletiva serviu de instrumento para

a opressão de minorias (um conceito que surgia com o nacionalismo),

o chauvinismo e as políticas expansionistas, como o imperialismo do

final do século. (VISENTINI; PEREIRA, 2008, p. 47).

Márcia Maria Menendes Motta também ressalta em seu texto o perigoso

sentimento de superioridade, cultivado pelos nacionalismos agressivos.

Sentimento que serviu de força motriz para as guerras modernas e resultou na

expansão capitalista dos estados nacionais.

Com a industrialização, fortaleceu-se o nacionalismo dos países,

o que significou a construção e generalização de um conjunto de

tradições que procuravam convencer a população de cada país de sua

importância e superioridade na história mundial. O passado de cada

nação era contado de forma a mostrar sua força e a união de seu povo.

Desdobrava-se do nacionalismo a ideia de um inimigo externo (outra

nação), encarado como responsável pelos problemas vividos pelo país.

O Estado tinha então um importante papel a cumprir. A generalização

da educação pública consolidou uma única língua nacional, construiu

uma única história e, para tanto, utilizou-se de antigas mágoas e

rivalidades. Era necessário forjar a noção da superioridade de um

povo em relação ao outro e criar, em caso de derrotas passadas, o

desejo da revanche. O nacionalismo era assim criado para fortalecer a

unidade nacional, a obediência de todos os cidadãos aos interesses do

país, fortalecendo o patriotismo, que, uma vez testado, faria com que

milhares de jovens se mostrassem dispostos a defender o seu país”.

(MOTTA, 2000, p. 236-237).

Entre os movimentos nacionalistas anteriores à Primeira Guerra estavam

o pan- -eslavismo, o pangermanismo, e o revanchismo francês.

O pan-eslavismo foi um movimento político e cultural motivado pela

Rússia que propunha a união de todos os povos eslavos (povos indo-europeus,

originários da Europa central e oriental). Acreditava-se que os eslavos tinham

características que os distinguia; a raiz linguística e determinados traços culturais. 

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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O pangermanismo, por sua vez, foi um movimento que objetivava

reunir os povos germânicos sob uma mesma bandeira e um mesmo ideal. (Esse

movimento foi responsável pela unificação da Alemanha no século XIX, sobre

o assunto consulte o Tópico 4 da Unidade 3 do Caderno de História Moderna).

A Alemanha, através da ideologia pangermanista, pretendia incorporar os

territórios da Europa Central para formar um grande bloco de países, que teriam

em comum uma pretensa origem germânica. O “revanchismo francês” foi menos

ideológico e mais estratégico. Nesse movimento político, a França pretendia

recuperar o território da Alsácia-Lorena (região rica em minério de ferro e carvão,

matérias-primas fundamentais às indústrias), perdido para a Alemanha na guerra

Franco-Prussiana de 1870.

Os movimentos nacionalistas, somados à ideia de superioridade racial,

serviram para legitimar as conquistas territoriais, ou seja, prestaram-se como

justificativa ideológica de domínio de territórios por uma nação imperialista. Os

novos colonizadores do século XIX acreditavam estar levando a “civilização”

para as regiões consideradas política e economicamente atrasadas. Por outro

lado, ao mesmo tempo em que os países imperialistas imprimiram sua política de

conquista e expansão nacionalista e racista criaram, entre os povos conquistados,

um sentimento de nacionalidade. Nesse sentido, o nacionalismo também pode

nascer da resistência ao autoritarismo das nações colonizadoras.

4 AS ALIANÇAS ENTRE AS POTÊNCIAS MUNDIAIS

A Itália e a Alemanha foram umas das últimas nações imperialistas a

passar pelo processo de unificação nacional. Enquanto a Inglaterra se unificou no

século XVII e a França no século XVIII, a Itália e a Alemanha encerraram as lutas

pela centralização política apenas no século XIX. A dinâmica de unificação e de

expansão da Alemanha foi, por sua vez, fator decisivo no desencadeamento dos

conflitos internacionais que resultaram na Primeira Guerra Mundial.

As ações imperialistas da Alemanha foram consequências do rápido

desenvolvimento capitalista que se deu naquele país. “Em menos de uma

geração, a Alemanha transformou-se de um conjunto de estados economicamente

atrasados num país unificado e forte. Impulsionada pela indústria pesada, com

uma base tecnológica muito avançada, a Alemanha adquiriu status de potência

em poucos anos”. (MOTTA, 2000, p. 234).

As manufaturas produzidas pela indústria alemã passaram a concorrer

no mercado internacional com os produtos ingleses. E para resguardar seus

interesses no além mar, o império alemão também investiu em uma poderosa

marinha de guerra. Assim, sob o próspero desenvolvimento capitalista, a

Alemanha se estruturou militarmente e procurou formar alianças para enfrentar

a supremacia inglesa no mundo. 

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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A Alemanha, unificada em 1871, formou um bloco político e militar com o

império Austro-Húngaro e com a Itália (Tríplice Aliança), para combater a expansão

da Rússia em direção ao Mediterrâneo, e as potências imperialistas “tradicionais”:

Inglaterra e França. Essas duas nações, entretanto, uniram-se com a Rússia para

combater a expansão germânica. Dessa aliança surgiu a Tríplice Entente.

Veja, no mapa a seguir, que os principais países da Tríplice Aliança são

vizinhos. Esse foi um fator importante para assegurar a integridade nacional da

própria Alemanha.

FONTE: VIDAL-NAQUET, P. et al. Atlas Histórico. Lisboa: Círculo do Leitor.

FIGURA 2 – OS BLOCOS DE PODER NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

5 O INÍCIO DA CATÁSTROFE: DOS BÁLCÃS PARA O

MUNDO

Foi na Península Balcânica que se concentraram os conflitos que

resultaram na declaração de guerra da Alemanha à Rússia, em 1º de agosto de

1914. Os conflitos nos Bálcãs já se arrastavam desde 1908, quando o império

Austro-Húngaro invadiu a Bósnia-Herzegovina e rumou em direção à Sérvia.

A conquista da Sérvia pela Áustria-Hungria foi uma estratégia para eliminar

a influência da Rússia nos Bálcãs. Por isso, a ação austríaca foi apoiada pela

Alemanha, que disputava com a Rússia territórios no leste europeu. A Rússia,

temendo a política de alianças entre a Alemanha e a Áustria-Hungria, aliou-se 

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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com a França e a Inglaterra. O efeito foi desastroso. As potências imperialistas

estabeleceram pactos com os países dos Bálcãs e acabaram instigando ódios e

ressentimentos antigos.

Somado ao contexto de expansão imperialista nos Bálcãs, houve, em 1912

e 1913, um conflito armado que envolveu Bulgária, Grécia, Sérvia, Romênia,

Montenegro e Turquia. Esses países disputavam os territórios do antigo Império

Otomano.

Armou-se o ambiente explosivo! Qualquer faísca colocaria tudo pelos ares.

Foi o que aconteceu: no dia 28 de junho, Francisco Ferdinando foi assassinado.

Esse episódio colocou não apenas os austríacos contra os sérvios, mas também

os alemães contra os russos, e não tardou para que outras potências, enquanto

aliadas, entrassem na guerra. O mapa a seguir mostra o palco inicial da Primeira

Guerra Mundial.

FONTE: Disponível em: <https://bit.ly/2P4DKr5>. Acesso em: 31 out. 2018.

FIGURA 3 – MAPA DOS BÁLCÃS: O PALCO INICIAL DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

6 A GUERRA DE TRINCHEIRAS

Em princípio, a guerra iniciada pelos alemães era para ter duração curta,

como a guerra entre a França e a Prússia de 1870 a 1871. Teoricamente, os alemães

planejaram derrotar a França, Inglaterra e Rússia antes de dezembro de 1914.

Contudo, na prática a história foi outra.

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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Para combater a Entente na frente ocidental, o marechal alemão Alfred

Von Schlieffen decidiu por um ataque rápido contra a Bélgica e a França. Pelos

seus cálculos, esse conflito não duraria mais que 40 dias. Porém, seu plano

fracassou. A eficiente técnica de defesa das trincheiras adotada pelos franceses e

belgas impediu a marcha apressada dos alemães.

No mapa a seguir, podemos visualizar as principias alianças militares,

e também as primeiras e maiores ofensivas da Aliança na frente ocidental em

direção à França e na frente oriental através da Polônia.

FONTE: Disponível em: <http://www.historiasefemeras.com/2015/12/primeira-guerra-mundialo-conflito.html>. Acesso em: 31 out. 2018

FIGURA 4 – A GUERRA E AS OPERAÇÕES MILITARES

Antes da Primeira Guerra Mundial, as batalhas se davam entre exércitos

em movimento, entretanto, o conflito mundial de 1914 ficou caracterizado pela

guerra de posições ou de trincheiras. Nesse tipo de combate, os soldados se

amontoaram em valas lamacentas. “Milhões de homens ficavam uns diante dos

outros nos parapeitos de trincheiras barricadas com sacos de areia, sob as quais

viviam como – e com – ratos e piolhos”. (HOBSBAWM, 1995, p.33). 

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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Outra característica da Primeira Guerra Mundial foi o uso de armas

químicas, como o temido “gás mostarda”, que queimava não apenas os pulmões,

mas todo o corpo. Gases e lança-chamas foram usados na batalha de Verdun,

a maior dessa guerra. Só nessa batalha se envolveram 2 milhões de soldados

e a metade morreu. Alguns depoimentos dos combatentes narram as lutas, as

trágicas e assustadoras experiências em Verdun. O texto retirado do site Terra traz

imagem desse episódio da Grande Guerra.

O horror sem tréguas sofrido pelos soldados no matadouro de Verdun

foi indescritível. Milhares de homens, os melhores exemplares de duas das

mais civilizadas e cultas sociedades até então conhecidas, foram reduzidos

durante meses a fio, em meio à chuva, à lama, à neve, ao gelo e depois ao sol,

à uma vida subumana. Como se fossem trogloditas, vergando os corpos como

caramujos, passaram intermináveis horas e dias dentro de buracos e de túneis,

de fossos e de cavernas, todas elas imundas, fétidas, invadidas por um repulsivo

mau cheiro, assustados pelo silvo dos morteiros e pelo atordoante impacto das

bombas e estilhaços que, como chuva pesada, não paravam de cair sobre eles.

Enlouquecidos pelo troar incessante das canhonadas, ainda assistiam diariamente

os estragos que as metralhas e os lança-chamas faziam sobre os corpos mutilados

dos seus camaradas. Os bombardeios enterravam e desenterravam os cadáveres.

Os miasmas e odores nauseabundos exalados por todos os lados eram tamanhos

que os soldados que frequentavam as latrinas do Forte Vaux usavam máscaras

antigás. Um número considerável de cartas enviadas pelos combatentes à

retaguarda, para os seus familiares, amigos ou amadas, compuseram o que se

pode designar como a “literatura de Verdun”, coletada por pesquisadores e

historiadores da correspondência vinda das trincheiras.

Exemplos:

- Comentário de um oficial alemão: “o número de desertores aumentou, os

soldados do fronte começaram a ficar insensíveis, apáticos, de tanto verem os

corpos sem cabeças, sem pernas, atingidos no estômago, trespassados na testa,

com buracos no peito, dificilmente reconhecidos, pálidos e sujos, em meio à

lama marrom- amarelada que cobre inteiramente o campo de batalha.”

- De um outro soldado alemão: “ numa única palavra, Verdun. Numerosos

rapazes, ainda jovens e cheios de esperanças, deixaram suas vidas aqui –

os restos mortais deles estão se decompondo em algum lugar entre as

trincheiras, em sepulturas de massa, nos cemitérios”.

- De um soldado francês: “durante os meses de verão, os vermes e as moscas

assolam os corpos e o fedor, aquele horrível cheiro... quando nós cavamos

trincheiras colocamos dentes de alho nas narinas.”

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

16

- Um outro testemunho: “lama, calor, sede, sujeira, ratos, o doce cheiro dos

corpos, o repugnante cheiro dos excrementos e o terrível medo... sinto que

temos que ir para o ataque, e isso justo quando ninguém tem mais vigor”.

- Um soldado francês descreve um bombardeamento: “Quando você ouve o

sibilo cada vez mais próximo todo o seu corpo encolhe-se preventivamente

preparando-se para a enorme explosão. Cada nova explosão é um novo

ataque, uma nova fadiga, uma nova aflição. Mesmo os nervos daqueles feitos

de aço não são capazes de suportar com tal tipo de pressão. O momento

vem quando o sangue explode na sua cabeça, a febre ferve no interior do

seu corpo e os nervos, entorpecidos pelo cansaço, não são capazes de reagir

a mais nada. É como se você estivesse preso a um poste, amarrado por um

homem com um martelo... é difícil até rezar para Deus”.

- Um oficial francês observa: “Primeiro passam companhias de esqueletos,

por vezes comandadas por um oficial ferido, apoiado numa muleta. Todos

marcham ou melhor movem-se para frente em zigue-zague como drogados.

Seus rostos aparentam como se eles tivessem gritando alguma coisa”.

FONTE: EDUCATERRA. O inferno de Verdun: eles não passarão! Disponível em: <http://

educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2002/04/25/001.htm>. Acesso em: 26 nov. 2008.

7 O DESFECHO DA GUERRA

Entre 1914 e 1917, os Estados Unidos haviam tirado vantagens econômicas

da guerra que se dava no outro lado do Oceano Atlântico. Nesse período, os norteamericanos foram os principais fornecedores de armas, alimentos e combustível aos

estados aliados da Europa. Porém, com o bloqueio dos alemães nos portos da GrãBretanha e da França, o lucrativo comércio dos Estados Unidos foi interrompido.

Foi assim, com a interrupção comercial forçada e com a saída da Rússia do conflito,

que os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha em 1917.

UNI

Lembre-se, prezado acadêmico, em 1917 se deu a revolução bolchevique na

Rússia, que criou o primeiro regime socialista da história. Esse tema será assunto de estudo

do próximo tópico.

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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Os Estados Unidos entraram na guerra em um momento importante

para recompor as forças dos aliados. Os longos quatro anos de guerra levaram

os países beligerantes à exaustão. Boa parte da população masculina produtiva

estava sendo exterminada nos campos de batalha. A Grande Guerra levou à morte

oito milhões de soldados e nove milhões de civis. Sem contar os seis milhões de

mortos por causa da gripe espanhola, e das vinte milhões de pessoas que ficaram

inválidas. Outro dado importante é que a Primeira Guerra foi o primeiro conflito

moderno com mais mortos civis que militares. Muitos combates se deram dentro

das próprias cidades.

A longa duração do conflito levou os exércitos ao esgotamento físico e

emocional. A fome foi o principal motivo de deserção entre as tropas e de morte

entre os civis. Os suprimentos eram escassos nas cidades, por causa do bloqueio

marítimo. Os submarinos alemães causaram verdadeiro terror nos mares. O

bloqueio foi uma das principais estratégias da Primeira Guerra. Devido à longa

duração da guerra, as pessoas ficaram meses, anos sem suprimentos. O bloqueio

marítimo provocou uma verdadeira tragédia social. Vejamos o que Carl Grimberg

nos diz sobre a precariedade da sociedade civil na Alemanha durante a guerra:

A fome minara a resistência do povo alemão. O bloqueio britânico

produzira os seus frutos. A Alemanha entrara em guerra sem

verdadeiras reservas. Esperando uma vitória rápida, as autoridades

tinham-se limitado, durante muito tempo, à racionalização da

agricultura por todos os métodos possíveis, à economia no consumo

alimentar e à procura de Ersatz (substitutos) para diversos produtos e

matérias-primas industriais. Em 1916 foi estabelecido o racionamento

geral para os artigos mais importantes. Mas as rações tiveram que ser

progressivamente reduzidas; era preciso acima de tudo, abastecer as

forças armadas. Em abril de 1917, o cidadão alemão recebia dois terços

da quantidade de pão que consumia em 1913; no outono de 1918, o

quantitativo descia para a metade. O nabo substituía a batata, dificílima

de encontrar. A fome provocava doenças, espalhava a tuberculose;

a situação, já crítica, agravou-se mais ainda, no Verão de 1918, com a

terrível “gripe espanhola”. A mortalidade aumentava dia a dia, primeiro

lentamente, depois por saltos sucessivos. (GRIMBERG, 1989, p. 48).

Se a entrada dos Estados Unidos, em 1917, possibilitou a recuperação

militar dos países aliados, o esgotamento de quatro anos de guerras acabou

enfraquecendo a Alemanha e influenciando sua derrota em 1918. Em 18 de

novembro de 1918 foi assinado, enfim, o armistício. A Alemanha foi, por sua vez,

a nação responsável pela guerra.

Com o fim da guerra e a rendição da Alemanha e de seus aliados, as nações

vencedoras reuniram-se na cidade francesa de Versalhes para assinar o tratado de

paz. Antes, porém, um plano de paz foi proposto pelo presidente dos Estados

Unidos, Woodrow Wilson (1856-1924), mas não foi aprovado na íntegra, pois foi

considerado muito “abstrato” e não previa uma punição para a Alemanha. Esse

plano ficou conhecido como “Os 14 pontos de Wilson”. Leia, a seguir, os pontos

defendidos pelo presidente dos Estados Unidos:

UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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1. Abolição da diplomacia secreta, ou seja, a diplomacia entre os países deveria

se tornar pública.

2. Plena liberdade de navegação, tanto em período de paz quanto de guerra, o

que significava uma crítica à tática de bloqueio naval.

3. Remoção, quando possível, de todas as barreiras econômicas entre as nações

e o estabelecimento de uma igualdade de condições de comércio entre as

nações.

4. Limitação dos armamentos nacionais, reduzidos ao menor nível, coerente

com a segurança nacional.

5. Ajuste imparcial das pretensões coloniais, considerando-se também os

interesses dos colonizados.

6. Ajuda à Rússia, para que este país pudesse obter uma oportunidade

desimpedida e desembaraçada para a determinação independente de seu

desenvolvimento político.

7. Restauração da independência da Bélgica.

8. Devolução da Alsácia-Lorena à França.

9. Reajustamento das fronteiras nacionais italianas.

10. Autonomia dos povos da Áustria-Hungria.

11. Restauração da Romênia, de Montenegro e da Sérvia, assegurando o acesso

ao mar.

12. Autonomia dos povos até então submetidos aos turcos.

13. Criação da Polônia independente.

14. Criação de uma Sociedade ou Liga da Nações.

FONTE: RODRIGUES, Luiz Cesar. A Primeira Guerra Mundial. 2. ed. São Paulo: Atual, 1985.

 Essa proposta, apesar de se basear no princípio de justiça entre as nações,

não satisfez os interesses de ingleses e franceses. A Inglaterra não estava disposta

a ceder sua supremacia nos mares e a França exigia uma reparação da Alemanha.

Sob essas condições, o Tratado de Versalhes foi redigido sob a liderança dos

vencedores: França, Inglaterra e Estados Unidos. Entre os pontos aprovados no

Tratado destacaram-se: 

TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

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• A criação da Liga das Nações.

• A devolução do território da Alsácia-Lorena para a França.

• A Alemanha deveria ceder seus territórios coloniais à Grã-Bratanha e à França

e os territórios invadidos deveriam ser devolvidos.

• O exército alemão seria reduzido a 100 mil soldados e o país não poderia formar

uma força aérea. A marinha estava restrita a 15 mil militares e não poderia usar

submarinos.

• Os navios mercantes da Alemanha seriam confiscados pelas nações vencedoras,

principalmente pela França e pela Inglaterra.

• A Alemanha deveria pagar 132 bilhões de marcos-ouro em trinta anos.

 De fato, a Alemanha, segundo o Tratado de Versalhes, foi a única nação

responsabilizada pela Grande Guerra. Os alemães saíram da Primeira Guerra

Mundial humilhados. Além de ter de recompor seu país, tiveram que saldar suas

dívidas com as nações vencedoras e reduzir drasticamente o contingente militar

do país. Veremos que esse sentimento de humilhação contribuiu para que Adolf

Hitler assumisse o governo da Alemanha na década de 1930. Acontecimento

que acabou levando a Alemanha, a Europa e o mundo a uma nova e também

catastrófica guerra mundial.

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Caro acadêmico, neste tópico você estudou:

As características gerais do tempo contemporâneo: a laicização do Estado; o

desenvolvimento do sistema capitalista; as guerras imperialistas; o crescimento

das cidades.

As duas guerras mundiais – Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Segunda

Guerra Mundial (1939-1945) – marcaram profundamente o século XX.

Os antecedentes da Primeira Guerra Mundial, chamada também de Grande

Guerra: disputas imperialistas na África, Ásia e conflitos nacionalistas na

Europa.

As alianças políticas para a guerra entre as potências tradicionais (Inglaterra,

França e Rússia) – Tríplice Entente, e as novas potências (Alemanha, Itália e

Áustria-Hungria) – Tríplice Aliança.

As principais características da Grande Guerra: batalhas de trincheiras; o uso

de armas químicas e a estratégia de bloqueio marítimo.

O Tratado de Versalhes foi uma imposição dos vencedores à Alemanha, que foi

responsabilizada pela guerra.