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sexta-feira, 26 de março de 2021
sábado, 7 de novembro de 2020
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de:
• identificar as principais causas e consequências da Primeira Guerra Mundial;
• conhecer o contexto em que se deu a Revolução Russa e a importância dessa revolução para a construção do panorama político e econômico do mundo contemporâneo;
• compreender a grande depressão de 1929 nos Estados Unidos da América e suas consequências na reestruturação do sistema capitalista. Esta unidade está organizada em três tópicos. Em cada um deles, você encontrará atividades para uma maior compreensão das informações apresentadas.
TÓPICO 1 – A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO RUSSA: ALTERNATIVA AO CAPITALISMO
TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS NO ENTRE GUERRAS E A CRISE DO SISTEMA CAPITALISTA
TÓPICO 1 UNIDADE 1
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO
CONTEMPORÂNEO
1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico! Chegamos ao último módulo do curso de História.
Agora podemos visualizar a sequência das disciplinas de história geral de nosso
curso: Pré-História, História Antiga, História Medieval, História da América,
História Moderna, e, por fim, História Contemporânea. É importante dizer que,
essa sequência progressiva no tempo serve apenas para objetivos didáticos, não
representa a “evolução da humanidade” para um estágio superior da civilização.
É inegável que entre a pré-história e a história contemporânea as sociedades
desenvolveram-se de forma incrível em termos tecnológicos, mas, por outro
lado, aumentaram as desigualdades sociais e destruíram o meio ambiente em
proporções alarmantes.
Se hoje questionamos os valores racionalistas baseados na ciência e na
técnica é, justamente, devido aos acontecimentos ligados às duas guerras mundiais
do século XX. A Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918) e a Segunda Guerra
Mundial (1939 a 1945) puseram um fim ao otimismo tecnológico da sociedade
capitalista do século XIX. Ou seja, as duas guerras mundiais nos mostraram os
perigos da evolução tecnológica sem controle. Afinal, onde queremos chegar
com tanto conhecimento científico e tecnológico? Será que as máquinas e as
“invenções maravilhosas” não contribuíram para afastar ainda mais os homens
de seus semelhantes e de suas tradições?
Depois da Revolução Industrial, as máquinas passaram a fazer parte do
dia a dia das sociedades urbanas e campesinas. As máquinas e as invenções do
século XIX e XX (aspirina, cinema, automóvel, avião) geraram um verdadeiro
sentimento de euforia e de felicidade. “Sob o impacto da Segunda Revolução
Industrial (final do século XIX até meados dos século XX), o progresso material
e científico expandia-se rapidamente, fundamentando a crença de que a
humanidade avançava linearmente rumo a um futuro promissor”. (VISENTINI;
PEREIRA, 2008, p. 89).
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
Por outro lado, o século XIX também foi o período de fortalecimento dos
estados nacionais modernos (como vimos em História Moderna) e de consolidação
do capitalismo industrial (esse assunto foi tratado em História do Imperialismo,
você se recorda?). Naquele momento, os centros urbanos da Europa serviam
como modelo de civilização: burguesa na cultura; liberal na política e capitalista
industrial em termos econômicos. Entretanto, a imagem positiva do progresso
tecnológico foi abalada com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Essa guerra
deixou evidente o lado negativo do progresso industrial e científico, quando
armas eficientes e sofisticadas tiraram milhares de vidas.
Segundo Eric Hobsbawm, a Primeira Guerra Mundial:
[...] assinalou o colapso da civilização (ocidental) do século XIX.
Tratava-se de uma civilização capitalista na economia; liberal na
estrutura legal e constitucional; burguesa na imagem de sua classe
hegemônica característica; exuberante com o avanço da ciência, do
conhecimento e da educação e também com o progresso material e
moral, e profundamente convencida da centralidade da Europa, berço
das revoluções da ciência, das artes, da política e da indústria e cuja
economia prevalecera na maior parte do mundo, que seus soldados
haviam conquistado e subjugado; uma Europa cujas populações
(incluindo-se o vasto e crescente fluxo de imigrantes europeus e seus
descendentes) haviam crescido até somar um terço da raça humana;
e cujos maiores Estados constituíram o sistema da política mundial.
(1995, p.16).
Esse caderno de estudos abordará, então, o período histórico marcado
pelos efeitos políticos, econômicos, sociais e culturais causados pelas duas
Grandes Guerras. O século XX foi tempo de incerteza em relação ao futuro; tempo
de nacionalismos extremados; tempo de alto desenvolvimento tecnológico.
2 O TEMPO CONTEMPORÂNEO
A História ou Idade Contemporânea compreende o espaço de tempo
que vai da Revolução Francesa (1789) aos nossos dias. Entretanto, iniciaremos
o caderno com a Primeira Grande Guerra. Sendo que a Revolução Francesa foi
tema de estudos do caderno de História Moderna e os principais acontecimentos
históricos do século XIX foram abordados no caderno de História do Imperialismo.
Antes de iniciarmos os estudos sobre a Primeira Guerra, veremos rapidamente
algumas das características do período contemporâneo e do tempo presente.
A idade contemporânea está marcada, de maneira geral, pelo
desenvolvimento e consolidação do regime capitalista no ocidente e,
consequentemente, pelas disputas das grandes potências europeias por territórios,
matérias-primas e mercados consumidores.
As disputas imperialistas, entre a última década do século XIX até a
Primeira Guerra Mundial, envolveram uma série de conflitos armados na África
e Ásia, principalmente. Tais disputas também promoveram os contatos culturais
entre diferentes culturas espalhadas pelo mundo. O processo de conquista
imperialista redesenhou, assim, o mapa mundial. Enquanto os territórios da Ásia
e da África foram subjugados pelas potências europeias, a América Latina se
tornou área de influência dos Estados Unidos.
A contemporaneidade é identificada, também, pelo desenvolvimento
industrial e tecnológico, que serviu e vem servindo a interesses distintos e
contraditórios. A indústria moderna produz tanto mercadorias voltadas ao conforto
e bem estar dos indivíduos, quanto instrumentos para guerras, para o extermínio.
A laicização do Estado foi outro acontecimento significativo da Idade
Contemporânea. Ela consistiu basicamente na separação política entre Igreja e
Estado. A substituição do estado monárquico (governado por representantes
da nobreza e da igreja), pelo estado republicano (governado por membros da
sociedade civil). Essa mudança teve origem na revolução burguesa do século
XVIII. (Sobre a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa consulte
o Tópico 4 da Unidade 3, do Caderno de estudos de História Moderna). Após a
Revolução Francesa, os antigos valores da Igreja foram sendo substituídos pelos
ideais republicanos dos Estados Nacionais. A escola, a imprensa e as propagandas
serviram para difundir um sentimento de identidade entre os habitantes de uma
nação. A exaltação do sentimento nacional é chamada de nacionalismo. Na história
contemporânea, as guerras agiram como fator incentivador do nacionalismo.
Segundo Visentini e Pereira (2008, p.120), após a Primeira Guerra Mundial, o
número de países republicanos se igualou ao número de países monárquicos.
Entre as guerras mundiais (1918-1939), o número de regimes republicanos passou
de três, em 1914, para catorze, em 1921.
O processo de migração do campo para a cidade foi outro fator importante
para compreendermos a Idade Contemporânea. O processo de industrialização
e de mecanização do trabalho no campo empurrou para a cidade uma grande
população de camponeses pobres. O crescimento acelerado das cidades é
característica marcante do século XX. A cidade é um espaço ambíguo que pode
congregar ou segregar os indivíduos ou as classes sociais. É um espaço de encontro
e desencontro, um espaço vivo, e, por isso, em constante transformação. Um espaço
tipicamente moderno. Assim, o desenvolvimento das cidades, a supremacia da
tecnologia e o incentivo ao nacionalismo estão entre as características marcantes
do tempo contemporâneo.
Esses fatores são importantes para entendermos a “era da catástrofe”
(HOBSBAWM, 2005): período entre 1914 e 1945; entre a Primeira e a Segunda
Guerra Mundial. As guerras mundiais arrasaram cidades e mataram militares e
civis; incitaram o ódio entre populações através da difusão do patriotismo agressivo.
Segundo Eric Hobsbawm:
O grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas
da guerra mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como
compreender o Breve Século XX sem ela. Ele foi marcado pela guerra.
Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os
canhões e as bombas não explodiam. (1995, p.30).
3 ANTECEDENTES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
(1914-1918)
Os números da guerra são estrondosos assim como foram as explosões
nos campos de batalha. O trágico saldo da Primeira Guerra Mundial, conhecida
também como Grande Guerra, foi de 8 milhões de mortos e 25 milhões de feridos.
Essa guerra envolveu o mundo, direta ou indiretamente. Além dos principais
países: Inglaterra, França, Rússia, Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, a guerra
alterou o cotidiano de milhares de pessoas em outros países.
Para que você tenha uma ideia da dimensão desse conflito, convido a ler
o texto a seguir, retirado do livro “Era dos extremos”, de Eric Hobsbawm.
A Primeira Guerra Mundial envolveu todas as grandes potências, e na
verdade todos os estados europeus, com exceção da Espanha, os Países Baixos,
os três países da Escandinávia e a Suíça. E mais: tropas do ultramar foram,
muitas vezes pela primeira vez, enviadas para lutar e operar fora de suas regiões.
Canadenses lutaram na França, australianos e neozelandeses forjaram a consciência
nacional numa península do Egeu – “Gallipoli” tornou-se seu mito nacional
– e, mais importante, os Estados Unidos rejeitaram a advertência de George
Washington quanto a “complicações europeias” e mandaram seus soldados para
lá, determinando assim a forma da história do século XX. Indianos foram enviados
para a Europa e o Oriente Médio, batalhões de trabalhadores chineses vieram para
o Ocidente, africanos lutaram no exército francês. Embora a ação militar fora da
Europa não fosse muito significativa a não ser no Oriente Médio, a guerra naval
foi mais uma vez global: a primeira batalha travou-se em 1914, ao largo das ilhas
Falkland, e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados,
deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio.
FONTE: HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad. Marcos
Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 31.
Mas como entender essa guerra global, esse imenso movimento armado
que teve duração de quatro anos? Para isso, faremos uma pequena revisão do
contexto político e econômico da segunda metade do século XIX e primeira década
do século XX. Pois, para que possamos compreender as causas da Grande Guerra,
é preciso entender as disputas imperialistas (ou neocolonialistas) daquele período.
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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Antes, que tal rever o conceito de Imperialismo?
Imperialismo: forma de política ou prática exercida por um Estado que visa à própria
expansão, seja por meio de aquisição territorial, seja pela submissão econômica, política e
cultural de outros Estados. (Dicionário Eletrônico Houaiss)
*
Segundo Vladimir Lênin o Imperialismo é a fase mais adiantada do sistema econômico
capitalista – LÊNIN, Vladimir I. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo :
Centauro, 2003. Já para Hannah Arendt o Imperialismo é o “primeiro estágio do domínio
político da burguesia”, ou seja, o período histórico (1884-1914) em que a classe burguesa
lutou contra os estadistas em defesa de uma política mundial que favorecesse a expansão
do comércio, antes restrito ao território nacional. Ver: ARENDT, Hannah. As origens do
totalitarismo: Imperialismo, a expansão do poder: uma análise dialética. Rio de janeiro:
Editora Documentário, 1976.
Os principais países imperialistas foram, justamente, aqueles que
se adiantaram no processo de industrialização. Aqueles que passaram pela
revolução industrial e estavam inseridos na dinâmica de comércio internacional de
mercadorias e matérias-primas. No mapa a seguir são apresentados os principais
estados imperialistas, assim como suas possessões. Perceba que a África, Oceania
e sul da Ásia tiveram seus territórios repartidos entre as potências europeias.
FIGURA 1 – OS IMPÉRIOS COLONIAIS NO MUNDO EXTRAEUROPEU EM 1914
FONTE: VISENTINI, Paulo G; PEREIRA, Analúcia D. História do mundo contemporâneo: da Pax
Britânica do século XVIII ao choque das civilizações do século XXI. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 95.
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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E o que explica essa partilha do mundo? Bom, para o sucesso de uma
economia capitalista baseada na produção industrial foi necessário: infraestrutura
urbana (base material indispensável para a produção); mão de obra suficiente
(operários treinados para exercer trabalhos mecânicos específicos); mercado
consumidor; e domínio de regiões fornecedoras de matérias-primas. Nesse
sentido, o desenvolvimento do capitalismo industrial se deu através da
colonização de zonas fornecedoras de matérias-primas e no fortalecimento do
mercado internacional. O volume de produtos manufaturados em circulação
crescia cada vez mais.
O processo de industrialização, por sua vez, se caracterizou pela
mecanização da produção. As primeiras indústrias que surgiram na Inglaterra no
século XVIII serviram de modelo para outras nações. As principais consequências
do desenvolvimento industrial foram:
• A mecanização da produção.
• A exploração do trabalho assalariado.
• A ampliação do mercado para consumo dos produtos industrializados.
• O crescimento das cidades (a exploração do campo pela cidade).
• O controle de territórios fornecedores de matérias-primas.
Podemos concluir que os conflitos imperialistas consistiram na disputa
das potências europeias por regiões que forneciam matérias-primas para a
indústria moderna. Essas mesmas regiões eram vistas também como mercados
consumidores de produtos industrializados. A luta por território e por
mercado levou os países imperialistas, por sua vez, a investir na produção e no
armazenamento de armas e a criar mecanismos de proteção econômica: estratégias
que tinham como objetivo impedir a importação, através da taxação de produtos
estrangeiros. Esses fatores somados forneceram as bases para a guerra.
Vejamos, assim, o que Carl Grimberg diz sobre o jogo de poder entre nações
imperialistas que contribuiu para o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial:
A verdade é que a guerra não foi procurada pela maior parte dos
estadistas europeus, os quais paulatinamente foram se encontrando com
ela; também é verdade que em geral se contava com uma descarga em razão
das enormes dissensões políticas existentes no sistema de Estados europeus.
O imperialismo das grandes potências europeias e a rivalidade marítima
germano-inglesa foram as causas principais e profundas do estampido do
conflito. Depois esteve a desforra francesa, que desejava a reconquista de
Alsácia e Lorena, e por fim, o afã expansionista da Rússia dirigido para a
aquisição dos estreitos do Mar Negro, sem citar os movimentos nacionalistas
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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dos povos da Europa oriental, perigosamente aliados com o pan-eslavismo
e o (neoeslavismo) alimentados pela Rússia. Esta disposição ambiental dos
povos de se embarcarem numa aventura bélica de proporções imprevisíveis foi
fomentada por uma propaganda nacionalista que educava sistematicamente
no tema do ódio.
FONTE: GRIMBERG, Carl. História Universal. A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Europa América,
1989. p. 4. v. 22.
Também é importante apontar o papel do nacionalismo na guerra. O
Nacionalismo exagerado (chauvinismo) agiu na construção do sentimento de
ódio em relação ao inimigo estrangeiro. De maneira geral, o nacionalismo – que
se inicia com o culto aos símbolos nacionais (hino e bandeira) e com a tradição
cultural da nação – reforça os laços afetivos da população de um país e marca
as diferenças entre as nações. O nacionalismo exagerado é um fator subjetivo
que incentiva os soldados ao combate. Aliás, o episódio que desencadeou a
Primeira Guerra Mundial – o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando,
herdeiro do império austríaco – foi organizado por um grupo de chauvinistas
sérvios, que desejavam a anexação dos territórios eslavos dos Balcãs (Eslovênia e
Croácia), então sob domínio do império Austro-Húngaro. Ferdinando foi morto
em Sarajevo (Bósnia), em 28 de junho de 1914, pelo estudante Gavrilo Princip,
membro do grupo nacionalista radical denominado “Mão Negra” ou “Unidade
ou Morte”. Defendia o ideal pan-eslavista e lutava pelo fim das influências
austríacas na Península Balcânica. Princip é considerado um dos primeiros
terroristas do século XX.
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Para aprofundar seus conhecimentos sobre Nacionalismo sugiro o livro de
Benedict Anderson, denominado “Comunidades Imaginadas”. Nesse livro, a autora faz
uma reflexão sobre a construção do sentimento de identidade nacional, ou melhor, do
sentimento que une as pessoas em torno da nação.
Segundo Anderson, a nação é constituída por uma “comunidade imaginada”, ou seja, por
uma população que mantém uma imagem de seu país e da própria comunidade nacional.
A imagem de uma nação é constituída historicamente por meio de uma série de símbolos,
mitos, alegorias, personagens heróicos e pela própria literatura.
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas – reflexões sobre a origem e a difusão do
nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Uma nação afirma sua identidade na relação com outros países. No
caso das nações imperialistas, a afirmação da nacionalidade se dá em função de
sua pretensa superioridade tecnológica e racial sobre as nações dominadas. O
movimento ultranacionalista foi um fator gerador de conflitos e guerras.
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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O nacionalismo revelou-se uma das ideologias mais importantes
do século (XX), emergindo como desbobramento da Revolução
Francesa e da Era Napoleônica ou reação a elas, representando um
movimento paralelo à ascensão da burguesia ao poder. A ideia de
soberania nacional, de autonomia como expressão da liberdade e
uma certa concepção romântica do povo (volkgeist) contribuía para
a formação da nação, que daria uma nova base ao Estado moderno.
O nacionalismo potencializava os fatores etnográficos, linguísticos,
religiosos e geográficos, e seu desenvolvimento, marcado por várias
guerras, desgastou as estruturas regionais e supranacionais que ainda
existiam no início do século XIX. De uma ideologia democrática e
progressiva, o nacionalismo foi se tornando, gradativamente, numa
concepção reacionária na Europa. As tradições inicialmente invocadas
como formadoras de determinada identidade passaram a ser
consideradas como traços da personalidade nacional. A emergência de
um sentimento de superioridade coletiva serviu de instrumento para
a opressão de minorias (um conceito que surgia com o nacionalismo),
o chauvinismo e as políticas expansionistas, como o imperialismo do
final do século. (VISENTINI; PEREIRA, 2008, p. 47).
Márcia Maria Menendes Motta também ressalta em seu texto o perigoso
sentimento de superioridade, cultivado pelos nacionalismos agressivos.
Sentimento que serviu de força motriz para as guerras modernas e resultou na
expansão capitalista dos estados nacionais.
Com a industrialização, fortaleceu-se o nacionalismo dos países,
o que significou a construção e generalização de um conjunto de
tradições que procuravam convencer a população de cada país de sua
importância e superioridade na história mundial. O passado de cada
nação era contado de forma a mostrar sua força e a união de seu povo.
Desdobrava-se do nacionalismo a ideia de um inimigo externo (outra
nação), encarado como responsável pelos problemas vividos pelo país.
O Estado tinha então um importante papel a cumprir. A generalização
da educação pública consolidou uma única língua nacional, construiu
uma única história e, para tanto, utilizou-se de antigas mágoas e
rivalidades. Era necessário forjar a noção da superioridade de um
povo em relação ao outro e criar, em caso de derrotas passadas, o
desejo da revanche. O nacionalismo era assim criado para fortalecer a
unidade nacional, a obediência de todos os cidadãos aos interesses do
país, fortalecendo o patriotismo, que, uma vez testado, faria com que
milhares de jovens se mostrassem dispostos a defender o seu país”.
(MOTTA, 2000, p. 236-237).
Entre os movimentos nacionalistas anteriores à Primeira Guerra estavam
o pan- -eslavismo, o pangermanismo, e o revanchismo francês.
O pan-eslavismo foi um movimento político e cultural motivado pela
Rússia que propunha a união de todos os povos eslavos (povos indo-europeus,
originários da Europa central e oriental). Acreditava-se que os eslavos tinham
características que os distinguia; a raiz linguística e determinados traços culturais.
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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O pangermanismo, por sua vez, foi um movimento que objetivava
reunir os povos germânicos sob uma mesma bandeira e um mesmo ideal. (Esse
movimento foi responsável pela unificação da Alemanha no século XIX, sobre
o assunto consulte o Tópico 4 da Unidade 3 do Caderno de História Moderna).
A Alemanha, através da ideologia pangermanista, pretendia incorporar os
territórios da Europa Central para formar um grande bloco de países, que teriam
em comum uma pretensa origem germânica. O “revanchismo francês” foi menos
ideológico e mais estratégico. Nesse movimento político, a França pretendia
recuperar o território da Alsácia-Lorena (região rica em minério de ferro e carvão,
matérias-primas fundamentais às indústrias), perdido para a Alemanha na guerra
Franco-Prussiana de 1870.
Os movimentos nacionalistas, somados à ideia de superioridade racial,
serviram para legitimar as conquistas territoriais, ou seja, prestaram-se como
justificativa ideológica de domínio de territórios por uma nação imperialista. Os
novos colonizadores do século XIX acreditavam estar levando a “civilização”
para as regiões consideradas política e economicamente atrasadas. Por outro
lado, ao mesmo tempo em que os países imperialistas imprimiram sua política de
conquista e expansão nacionalista e racista criaram, entre os povos conquistados,
um sentimento de nacionalidade. Nesse sentido, o nacionalismo também pode
nascer da resistência ao autoritarismo das nações colonizadoras.
4 AS ALIANÇAS ENTRE AS POTÊNCIAS MUNDIAIS
A Itália e a Alemanha foram umas das últimas nações imperialistas a
passar pelo processo de unificação nacional. Enquanto a Inglaterra se unificou no
século XVII e a França no século XVIII, a Itália e a Alemanha encerraram as lutas
pela centralização política apenas no século XIX. A dinâmica de unificação e de
expansão da Alemanha foi, por sua vez, fator decisivo no desencadeamento dos
conflitos internacionais que resultaram na Primeira Guerra Mundial.
As ações imperialistas da Alemanha foram consequências do rápido
desenvolvimento capitalista que se deu naquele país. “Em menos de uma
geração, a Alemanha transformou-se de um conjunto de estados economicamente
atrasados num país unificado e forte. Impulsionada pela indústria pesada, com
uma base tecnológica muito avançada, a Alemanha adquiriu status de potência
em poucos anos”. (MOTTA, 2000, p. 234).
As manufaturas produzidas pela indústria alemã passaram a concorrer
no mercado internacional com os produtos ingleses. E para resguardar seus
interesses no além mar, o império alemão também investiu em uma poderosa
marinha de guerra. Assim, sob o próspero desenvolvimento capitalista, a
Alemanha se estruturou militarmente e procurou formar alianças para enfrentar
a supremacia inglesa no mundo.
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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A Alemanha, unificada em 1871, formou um bloco político e militar com o
império Austro-Húngaro e com a Itália (Tríplice Aliança), para combater a expansão
da Rússia em direção ao Mediterrâneo, e as potências imperialistas “tradicionais”:
Inglaterra e França. Essas duas nações, entretanto, uniram-se com a Rússia para
combater a expansão germânica. Dessa aliança surgiu a Tríplice Entente.
Veja, no mapa a seguir, que os principais países da Tríplice Aliança são
vizinhos. Esse foi um fator importante para assegurar a integridade nacional da
própria Alemanha.
FONTE: VIDAL-NAQUET, P. et al. Atlas Histórico. Lisboa: Círculo do Leitor.
FIGURA 2 – OS BLOCOS DE PODER NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
5 O INÍCIO DA CATÁSTROFE: DOS BÁLCÃS PARA O
MUNDO
Foi na Península Balcânica que se concentraram os conflitos que
resultaram na declaração de guerra da Alemanha à Rússia, em 1º de agosto de
1914. Os conflitos nos Bálcãs já se arrastavam desde 1908, quando o império
Austro-Húngaro invadiu a Bósnia-Herzegovina e rumou em direção à Sérvia.
A conquista da Sérvia pela Áustria-Hungria foi uma estratégia para eliminar
a influência da Rússia nos Bálcãs. Por isso, a ação austríaca foi apoiada pela
Alemanha, que disputava com a Rússia territórios no leste europeu. A Rússia,
temendo a política de alianças entre a Alemanha e a Áustria-Hungria, aliou-se
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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com a França e a Inglaterra. O efeito foi desastroso. As potências imperialistas
estabeleceram pactos com os países dos Bálcãs e acabaram instigando ódios e
ressentimentos antigos.
Somado ao contexto de expansão imperialista nos Bálcãs, houve, em 1912
e 1913, um conflito armado que envolveu Bulgária, Grécia, Sérvia, Romênia,
Montenegro e Turquia. Esses países disputavam os territórios do antigo Império
Otomano.
Armou-se o ambiente explosivo! Qualquer faísca colocaria tudo pelos ares.
Foi o que aconteceu: no dia 28 de junho, Francisco Ferdinando foi assassinado.
Esse episódio colocou não apenas os austríacos contra os sérvios, mas também
os alemães contra os russos, e não tardou para que outras potências, enquanto
aliadas, entrassem na guerra. O mapa a seguir mostra o palco inicial da Primeira
Guerra Mundial.
FONTE: Disponível em: <https://bit.ly/2P4DKr5>. Acesso em: 31 out. 2018.
FIGURA 3 – MAPA DOS BÁLCÃS: O PALCO INICIAL DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
6 A GUERRA DE TRINCHEIRAS
Em princípio, a guerra iniciada pelos alemães era para ter duração curta,
como a guerra entre a França e a Prússia de 1870 a 1871. Teoricamente, os alemães
planejaram derrotar a França, Inglaterra e Rússia antes de dezembro de 1914.
Contudo, na prática a história foi outra.
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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Para combater a Entente na frente ocidental, o marechal alemão Alfred
Von Schlieffen decidiu por um ataque rápido contra a Bélgica e a França. Pelos
seus cálculos, esse conflito não duraria mais que 40 dias. Porém, seu plano
fracassou. A eficiente técnica de defesa das trincheiras adotada pelos franceses e
belgas impediu a marcha apressada dos alemães.
No mapa a seguir, podemos visualizar as principias alianças militares,
e também as primeiras e maiores ofensivas da Aliança na frente ocidental em
direção à França e na frente oriental através da Polônia.
FONTE: Disponível em: <http://www.historiasefemeras.com/2015/12/primeira-guerra-mundialo-conflito.html>. Acesso em: 31 out. 2018
FIGURA 4 – A GUERRA E AS OPERAÇÕES MILITARES
Antes da Primeira Guerra Mundial, as batalhas se davam entre exércitos
em movimento, entretanto, o conflito mundial de 1914 ficou caracterizado pela
guerra de posições ou de trincheiras. Nesse tipo de combate, os soldados se
amontoaram em valas lamacentas. “Milhões de homens ficavam uns diante dos
outros nos parapeitos de trincheiras barricadas com sacos de areia, sob as quais
viviam como – e com – ratos e piolhos”. (HOBSBAWM, 1995, p.33).
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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Outra característica da Primeira Guerra Mundial foi o uso de armas
químicas, como o temido “gás mostarda”, que queimava não apenas os pulmões,
mas todo o corpo. Gases e lança-chamas foram usados na batalha de Verdun,
a maior dessa guerra. Só nessa batalha se envolveram 2 milhões de soldados
e a metade morreu. Alguns depoimentos dos combatentes narram as lutas, as
trágicas e assustadoras experiências em Verdun. O texto retirado do site Terra traz
imagem desse episódio da Grande Guerra.
O horror sem tréguas sofrido pelos soldados no matadouro de Verdun
foi indescritível. Milhares de homens, os melhores exemplares de duas das
mais civilizadas e cultas sociedades até então conhecidas, foram reduzidos
durante meses a fio, em meio à chuva, à lama, à neve, ao gelo e depois ao sol,
à uma vida subumana. Como se fossem trogloditas, vergando os corpos como
caramujos, passaram intermináveis horas e dias dentro de buracos e de túneis,
de fossos e de cavernas, todas elas imundas, fétidas, invadidas por um repulsivo
mau cheiro, assustados pelo silvo dos morteiros e pelo atordoante impacto das
bombas e estilhaços que, como chuva pesada, não paravam de cair sobre eles.
Enlouquecidos pelo troar incessante das canhonadas, ainda assistiam diariamente
os estragos que as metralhas e os lança-chamas faziam sobre os corpos mutilados
dos seus camaradas. Os bombardeios enterravam e desenterravam os cadáveres.
Os miasmas e odores nauseabundos exalados por todos os lados eram tamanhos
que os soldados que frequentavam as latrinas do Forte Vaux usavam máscaras
antigás. Um número considerável de cartas enviadas pelos combatentes à
retaguarda, para os seus familiares, amigos ou amadas, compuseram o que se
pode designar como a “literatura de Verdun”, coletada por pesquisadores e
historiadores da correspondência vinda das trincheiras.
Exemplos:
- Comentário de um oficial alemão: “o número de desertores aumentou, os
soldados do fronte começaram a ficar insensíveis, apáticos, de tanto verem os
corpos sem cabeças, sem pernas, atingidos no estômago, trespassados na testa,
com buracos no peito, dificilmente reconhecidos, pálidos e sujos, em meio à
lama marrom- amarelada que cobre inteiramente o campo de batalha.”
- De um outro soldado alemão: “ numa única palavra, Verdun. Numerosos
rapazes, ainda jovens e cheios de esperanças, deixaram suas vidas aqui –
os restos mortais deles estão se decompondo em algum lugar entre as
trincheiras, em sepulturas de massa, nos cemitérios”.
- De um soldado francês: “durante os meses de verão, os vermes e as moscas
assolam os corpos e o fedor, aquele horrível cheiro... quando nós cavamos
trincheiras colocamos dentes de alho nas narinas.”
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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- Um outro testemunho: “lama, calor, sede, sujeira, ratos, o doce cheiro dos
corpos, o repugnante cheiro dos excrementos e o terrível medo... sinto que
temos que ir para o ataque, e isso justo quando ninguém tem mais vigor”.
- Um soldado francês descreve um bombardeamento: “Quando você ouve o
sibilo cada vez mais próximo todo o seu corpo encolhe-se preventivamente
preparando-se para a enorme explosão. Cada nova explosão é um novo
ataque, uma nova fadiga, uma nova aflição. Mesmo os nervos daqueles feitos
de aço não são capazes de suportar com tal tipo de pressão. O momento
vem quando o sangue explode na sua cabeça, a febre ferve no interior do
seu corpo e os nervos, entorpecidos pelo cansaço, não são capazes de reagir
a mais nada. É como se você estivesse preso a um poste, amarrado por um
homem com um martelo... é difícil até rezar para Deus”.
- Um oficial francês observa: “Primeiro passam companhias de esqueletos,
por vezes comandadas por um oficial ferido, apoiado numa muleta. Todos
marcham ou melhor movem-se para frente em zigue-zague como drogados.
Seus rostos aparentam como se eles tivessem gritando alguma coisa”.
FONTE: EDUCATERRA. O inferno de Verdun: eles não passarão! Disponível em: <http://
educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2002/04/25/001.htm>. Acesso em: 26 nov. 2008.
7 O DESFECHO DA GUERRA
Entre 1914 e 1917, os Estados Unidos haviam tirado vantagens econômicas
da guerra que se dava no outro lado do Oceano Atlântico. Nesse período, os norteamericanos foram os principais fornecedores de armas, alimentos e combustível aos
estados aliados da Europa. Porém, com o bloqueio dos alemães nos portos da GrãBretanha e da França, o lucrativo comércio dos Estados Unidos foi interrompido.
Foi assim, com a interrupção comercial forçada e com a saída da Rússia do conflito,
que os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha em 1917.
UNI
Lembre-se, prezado acadêmico, em 1917 se deu a revolução bolchevique na
Rússia, que criou o primeiro regime socialista da história. Esse tema será assunto de estudo
do próximo tópico.
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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Os Estados Unidos entraram na guerra em um momento importante
para recompor as forças dos aliados. Os longos quatro anos de guerra levaram
os países beligerantes à exaustão. Boa parte da população masculina produtiva
estava sendo exterminada nos campos de batalha. A Grande Guerra levou à morte
oito milhões de soldados e nove milhões de civis. Sem contar os seis milhões de
mortos por causa da gripe espanhola, e das vinte milhões de pessoas que ficaram
inválidas. Outro dado importante é que a Primeira Guerra foi o primeiro conflito
moderno com mais mortos civis que militares. Muitos combates se deram dentro
das próprias cidades.
A longa duração do conflito levou os exércitos ao esgotamento físico e
emocional. A fome foi o principal motivo de deserção entre as tropas e de morte
entre os civis. Os suprimentos eram escassos nas cidades, por causa do bloqueio
marítimo. Os submarinos alemães causaram verdadeiro terror nos mares. O
bloqueio foi uma das principais estratégias da Primeira Guerra. Devido à longa
duração da guerra, as pessoas ficaram meses, anos sem suprimentos. O bloqueio
marítimo provocou uma verdadeira tragédia social. Vejamos o que Carl Grimberg
nos diz sobre a precariedade da sociedade civil na Alemanha durante a guerra:
A fome minara a resistência do povo alemão. O bloqueio britânico
produzira os seus frutos. A Alemanha entrara em guerra sem
verdadeiras reservas. Esperando uma vitória rápida, as autoridades
tinham-se limitado, durante muito tempo, à racionalização da
agricultura por todos os métodos possíveis, à economia no consumo
alimentar e à procura de Ersatz (substitutos) para diversos produtos e
matérias-primas industriais. Em 1916 foi estabelecido o racionamento
geral para os artigos mais importantes. Mas as rações tiveram que ser
progressivamente reduzidas; era preciso acima de tudo, abastecer as
forças armadas. Em abril de 1917, o cidadão alemão recebia dois terços
da quantidade de pão que consumia em 1913; no outono de 1918, o
quantitativo descia para a metade. O nabo substituía a batata, dificílima
de encontrar. A fome provocava doenças, espalhava a tuberculose;
a situação, já crítica, agravou-se mais ainda, no Verão de 1918, com a
terrível “gripe espanhola”. A mortalidade aumentava dia a dia, primeiro
lentamente, depois por saltos sucessivos. (GRIMBERG, 1989, p. 48).
Se a entrada dos Estados Unidos, em 1917, possibilitou a recuperação
militar dos países aliados, o esgotamento de quatro anos de guerras acabou
enfraquecendo a Alemanha e influenciando sua derrota em 1918. Em 18 de
novembro de 1918 foi assinado, enfim, o armistício. A Alemanha foi, por sua vez,
a nação responsável pela guerra.
Com o fim da guerra e a rendição da Alemanha e de seus aliados, as nações
vencedoras reuniram-se na cidade francesa de Versalhes para assinar o tratado de
paz. Antes, porém, um plano de paz foi proposto pelo presidente dos Estados
Unidos, Woodrow Wilson (1856-1924), mas não foi aprovado na íntegra, pois foi
considerado muito “abstrato” e não previa uma punição para a Alemanha. Esse
plano ficou conhecido como “Os 14 pontos de Wilson”. Leia, a seguir, os pontos
defendidos pelo presidente dos Estados Unidos:
UNIDADE 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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1. Abolição da diplomacia secreta, ou seja, a diplomacia entre os países deveria
se tornar pública.
2. Plena liberdade de navegação, tanto em período de paz quanto de guerra, o
que significava uma crítica à tática de bloqueio naval.
3. Remoção, quando possível, de todas as barreiras econômicas entre as nações
e o estabelecimento de uma igualdade de condições de comércio entre as
nações.
4. Limitação dos armamentos nacionais, reduzidos ao menor nível, coerente
com a segurança nacional.
5. Ajuste imparcial das pretensões coloniais, considerando-se também os
interesses dos colonizados.
6. Ajuda à Rússia, para que este país pudesse obter uma oportunidade
desimpedida e desembaraçada para a determinação independente de seu
desenvolvimento político.
7. Restauração da independência da Bélgica.
8. Devolução da Alsácia-Lorena à França.
9. Reajustamento das fronteiras nacionais italianas.
10. Autonomia dos povos da Áustria-Hungria.
11. Restauração da Romênia, de Montenegro e da Sérvia, assegurando o acesso
ao mar.
12. Autonomia dos povos até então submetidos aos turcos.
13. Criação da Polônia independente.
14. Criação de uma Sociedade ou Liga da Nações.
FONTE: RODRIGUES, Luiz Cesar. A Primeira Guerra Mundial. 2. ed. São Paulo: Atual, 1985.
Essa proposta, apesar de se basear no princípio de justiça entre as nações,
não satisfez os interesses de ingleses e franceses. A Inglaterra não estava disposta
a ceder sua supremacia nos mares e a França exigia uma reparação da Alemanha.
Sob essas condições, o Tratado de Versalhes foi redigido sob a liderança dos
vencedores: França, Inglaterra e Estados Unidos. Entre os pontos aprovados no
Tratado destacaram-se:
TÓPICO 1 | A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
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• A criação da Liga das Nações.
• A devolução do território da Alsácia-Lorena para a França.
• A Alemanha deveria ceder seus territórios coloniais à Grã-Bratanha e à França
e os territórios invadidos deveriam ser devolvidos.
• O exército alemão seria reduzido a 100 mil soldados e o país não poderia formar
uma força aérea. A marinha estava restrita a 15 mil militares e não poderia usar
submarinos.
• Os navios mercantes da Alemanha seriam confiscados pelas nações vencedoras,
principalmente pela França e pela Inglaterra.
• A Alemanha deveria pagar 132 bilhões de marcos-ouro em trinta anos.
De fato, a Alemanha, segundo o Tratado de Versalhes, foi a única nação
responsabilizada pela Grande Guerra. Os alemães saíram da Primeira Guerra
Mundial humilhados. Além de ter de recompor seu país, tiveram que saldar suas
dívidas com as nações vencedoras e reduzir drasticamente o contingente militar
do país. Veremos que esse sentimento de humilhação contribuiu para que Adolf
Hitler assumisse o governo da Alemanha na década de 1930. Acontecimento
que acabou levando a Alemanha, a Europa e o mundo a uma nova e também
catastrófica guerra mundial.
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Caro acadêmico, neste tópico você estudou:
As características gerais do tempo contemporâneo: a laicização do Estado; o
desenvolvimento do sistema capitalista; as guerras imperialistas; o crescimento
das cidades.
As duas guerras mundiais – Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Segunda
Guerra Mundial (1939-1945) – marcaram profundamente o século XX.
Os antecedentes da Primeira Guerra Mundial, chamada também de Grande
Guerra: disputas imperialistas na África, Ásia e conflitos nacionalistas na
Europa.
As alianças políticas para a guerra entre as potências tradicionais (Inglaterra,
França e Rússia) – Tríplice Entente, e as novas potências (Alemanha, Itália e
Áustria-Hungria) – Tríplice Aliança.
As principais características da Grande Guerra: batalhas de trincheiras; o uso
de armas químicas e a estratégia de bloqueio marítimo.
O Tratado de Versalhes foi uma imposição dos vencedores à Alemanha, que foi
responsabilizada pela guerra.

